Vida simples

 

Aos quarenta e três anos, Nicolau tinha uma vida simples. Acordava cedo em sua modesta casa de campo em San Casciano, próxima a Florença, seguindo para um passeio matinal no bosque, onde trocava anedotas com os lenhadores da região. Às vezes visitava uma fonte ou um viveiro de pássaros, com um livro de Dante ou Petrarca sob o braço. Matava o tempo montando armadilhas na estrada para caçar tordos, chegando a apanhar até seis aves num dia. Em um albergue próximo, conversava com os passantes, perguntando notícias de onde vinham, observando atento “a variedade dos gostos, a diversidade do capricho dos homens”.

Após um almoço na sua propriedade, por hábito se punha de volta ao albergue para jogar gamão e cartas com gente da região: açougueiros, moleiros e forneiros que jogavam à moda italiana, se exaltando em “mil disputas e querelas sem fim” por conta de alguns centavos.

À noite, recolhia-se ao seu escritório para ler os autores clássicos, passando até quatro horas servindo-se, nas suas palavras, do “alimento que por excelência me nutre e para o qual nasci”. Ali aproveitou para escrever um pequeno livro sobre sua experiência nos “assuntos de Estado”.

Eric levava uma vida simples também, em seu chalé em Wallington, na Inglaterra, e sentiu muito ter de deixá-la, por razões de saúde, para passar uma temporada no Marrocos. Vivendo dos artigos literários e políticos que publicava em revistas, além de seus romances, Eric hesitava em deixar a casa, em especial os animais que possuía – trinta galinhas, algumas cabras – e que lhe garantiam algum alimento nas temporadas em que o dinheiro custava a chegar.

Ao escrever a seu amigo Jack Common, sugerindo a ele que ocupasse a casa enquanto estivesse fora, Eric foi honesto: “Você sabe como é a casa. É horrível. Ainda assim é mais ou menos habitável. Há um quarto com uma cama de casal e um com uma de solteiro, e acho que há lençóis suficientes para um casal & uma criança. Quando chove de repente, a cozinha costuma alagar, de resto a casa é razoavelmente seca. (…) Temos água encanada, mas não quente, é claro. Temos um fogão a gás, que é caro (o gás, quero dizer), mas há também um pequeno forno a óleo que pode ser ressuscitado. Quanto a hortaliças, não haverá muitos vegetais, pois Eileen sozinha não tinha como cuidar de todo o jardim, mas de qualquer forma deve haver batatas suficientes para passar o inverno. Você terá leite também, um litro por dia mais ou menos, pois a cabra acaba de parir. Muita gente tem preconceito contra leite de cabra, mas não é diferente do leite de vaca, e dizem ser bom para as crianças”. Jack aceitou a oferta e foi viver no chalé.

O livrinho que Nicolau Maquiavel escrevera em sua casa de campo em 1513 chamava-se O Príncipe. Enviado à corte dos Medici na tentativa de reaver seu prestígio político, não obteve o efeito desejado. Maquiavel até consegue voltar, alguns anos depois, à atividade política e diplomática – a qual prezava mais do que a vida de intelectual – mas, frustrado com os novos tempos, volta a viver na casa de campo em 1521, onde morreria, melancólico, seis anos depois. Seu livro se tornou possivelmente a obra mais importante já escrita sobre a política e o poder.

Eric Blair não gostou do Marrocos, de onde escrevia para Jack Common perguntando sobre suas galinhas e sua cabra, afetuosamente batizada de Muriel. Voltou cerca de um ano depois, em 1939, tendo usado o tempo no país árabe para escrever alguns dos textos de seu livro Dentro da Baleia e Outros Ensaios, publicado mais tarde sob seu pseudônimo, George Orwell. Sua clareza moral e aversão a  todo tipo de opressão e abuso de poder – que fazem dele quase um anti-Maquiavel – iluminam obras-primas como “O enforcamento”, “O abate de um elefante” e “Política e a língua inglesa”, e fazem do livro um clássico. Quando escreveu, alguns anos depois, seu livro mais conhecido – A Revolução dos Bichos – Orwell deu à personagem da velha cabra da fazenda o nome de Muriel.

 


Imagem: Villa La Pietra, via Bolognese, 120, Florence, Tuscany, Italy. Entrance drive. 1925, summer.

Fotógrafo: Johnston, Frances Benjamin,, 1864-1952.

Fonte: Library of Congress

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