Pirotecnia

No dia 3 de setembro de 1989, a escriturária Rosenery Mello era apenas uma entre os 131 mil torcedores que assistiam no Maracanã a partida Brasil x Chile, válida pelas eliminatórias da Copa da Itália.

Aos 23 minutos do segundo tempo, Rosenery disparou um sinalizador marítimo na direção do campo. O artefato caiu a cerca de um metro do goleiro do Chile, Roberto Rojas, cujo time perdia por um a zero. Rojas, goleiro do time do São Paulo à época, atirou-se no chão, simulando ter sido atingido. Quando se levantou, tinha um corte no supercílio. Em protesto, a seleção chilena retirou-se do campo, carregando nos braços o goleiro. Tudo uma farsa. Rojas mais tarde confessou não ter sido atingido pelo rojão, e não soube explicar a origem do corte. O Brasil teve a vitória reconhecida e classificou-se para a Copa. Roberto Rojas foi punido pela FIFA e impedido de disputar partidas internacionais.

A morte do cinegrafista da Band Santiago Andrade, atingido no rosto por um rojão de vara disparado por uma manifestante durante protesto no Rio de Janeiro, é um tragédia pessoal e um crime que não pode passar impune. Seu sentido político, entretanto, vem sendo disputado com o equivalente retórico dos fogos de artifício.

Desde as jornadas de junho, nossa atmosfera está carregada. Os que lançam nela suas vozes altissonantes, denunciando a morte de Santiago como uma agressão à liberdade de imprensa e à democracia, comportam-se na verdade como Rojas. Simulam terem sido atingidos, mas é tudo teatro. Jogam para a torcida – em especial, a torcida desorganizada da linha “prendo e arrebento”, que o cientista político José Murilo de Carvalho classificou habilmente de “perigo White Bloc”.

O “outro lado”, é verdade, não faz por menos. Espalha na web fotos e vídeos que ‘provam” contradições da versão oficial. Não provam nada, claro, o que não importa: como Chacrinha, eles vieram para confundir, não para explicar.

Como é comum acontecer, os extremos se tocam. Aqueles que defendiam a tática black bloc como uma “narrativa” marcada pela “violência simbólica” agora ouvem de seus adversários que a morte do jornalista foi nada menos que uma “violência simbólica” contra a imprensa, que os manifestantes supostamente querem calar (alguns querem mesmo).

Simbólica ou não, violência é violência. Produzida não por “forças ocultas” ou pelo “sistema”, mas por indivíduos. Inclusive os que estimulam e armam outros para que produzam atos violentos. A democracia exige que sejam julgados e punidos. Mas é também da democracia que o façamos sem presunções de culpa e generalizações irresponsáveis. E sem criminalizar o direito à livre manifestação, pilar da democracia. Sem fogos de artifício.

Em novembro de 1989, Rosenery Mello posou na capa da Playboy como a “fogueteira do Maracanã”. Recebeu da revista 8 mil dólares. No mesmo mês, Rojas recusou um convite do São Bento de Sorocaba para jogar pelo time com patrocínio dos Fogos Caramuru. Pirotecnias do país da piada pronta. Já nossos rojões (reais e retóricos) de hoje me lembram mais é o título da HQ do Alan Moore, uma das minhas leituras favoritas daquele remoto 1989: A Piada Mortal.

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