Jânio vive

Publicado originalmente no Observador Político.

Jânio Quadros, que renunciou, há exatos cinqüenta anos, à Presidência da República, marcou como poucos a prática política brasileira.

Impossível não pensar na sua vocação para o absurdo ao assistir a galeria de loucos e excêntricos que habitam hoje o horário eleitoral gratuito. A fala arrastada (num sotaque de sua própria criação), o terno mal ajambrado, o passo em falso, Jânio lembrava a imagem romântica de um bêbado de esquina, quase um Carlitos tupiniquim. Mas sessenta anos antes de Tiririca, o povo já sabia que a política é no fundo um circo, e gostou dele.

Seu discurso exagerado, cheio de ênclises e mesóclises, sempre me soou como uma bem feita sátira da fala empolada dos políticos. Era uma ironia intencional? Como soava na época? Talvez Jânio tenha sido nosso primeiro presidente pós-moderno.

Jânio foi um precursor do factóide – como presidente, proibiu biquíni na praia, maiô em concurso de miss, lança-perfume, corridas de cavalo em dias úteis, veiculação de comerciais no cinema, apresentações de hipnotismo e brigas de galo. Bizarrices cujo espírito é reproduzido todos os dias nos projetos de lei apresentados por vereadores e deputados por todo o país.

(Nos anos 90, César Maia reviveria com sucesso a estratégia como prefeito, emplacando o termo “factóide” no dicionário graças a gestos midiáticos que lhe valeram o apelido entre os cariocas de “César maluco” e muita popularidade).

Jânio foi o precursor de todas as faxinas, eternizando o jingle “varre, varre, vassourinha”. Sua cruzada anticorrupção, direcionada originalmente ao seu rival Adhemar de Barros, ajudou a forjar como lugar-comum entre nós o discurso abstrato e antipolítico contra “os corruptos”. O figurino antipolítico faz sucesso até hoje, e tem ajudado bem a popularidade de Dilma nos primeiros meses do seu governo.

Seus excêntricos bilhetinhos, direcionados a assessores, políticos e jornalistas, eram peças brilhantes de marketing pessoal. A um jornalista que o chamara de feio e meio louco, respondeu com um deles: “Informo ilustre jornalista não ser tão feio quanto pareço nem tão louco quanto devia”. Jânio, quem diria, foi um precursor do Twitter.

Sua ascensão e queda meteóricas se repetiram trinta anos depois na eleição de Collor de Mello, a farsa repetida como farsa. Como ele, Collor se autoproclamava um outsider que varreria os corruptos do poder – e a exemplo de Jânio, acabou ele fora do Planalto, forçado a renunciar. “Impossível governar com esse Congresso”, dizia Jânio, palavras depois ecoadas pelo caçador de marajás que nele se inspirou.

Sua renúncia, após 200 dias de governo, foi o gesto mais impensado da nossa História. Não havia crise econômica ou política que remotamente a justificasse. Tinha aprovação popular. A resistência dos militares ao seu vice João Goulart jogou o país no caminho da turbulência que culminou no Golpe de 64. Impossível imaginar o que teria sido de nossa história tivesse Jânio completado seu mandato.

No seu delírio Jânio imaginara-se nos braços do povo, que o levava de volta para Brasília para ser o chefe de um governo imperial. Mas ninguém entendeu nada e Jânio foi para um ostracismo por ele mesmo decretado. Veredito do povo: naquele dia o presidente bebeu demais.

Segundo seu neto, Jânio, pouco antes de morrer, teria dito, sobre a renúncia: “A coisa mais difícil de se fazer quando você está no poder é manter a noção da realidade”. As forças terríveis estavam todas dentro da sua cabeça.

Num período de 13 anos, Jânio Quadros foi vereador, deputado estadual, prefeito de São Paulo, governador, deputado federal e presidente da República. Numa madrugada resolveu, a troco de nada, arriscar tudo isso, e perdeu. A política é misteriosa. Mas Jânio era mais.

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